A pergunta se testosterona causa infarto é, sem dúvida, a objeção número um que escuto de pacientes que poderiam se beneficiar da reposição hormonal mas têm medo de começar. O mito é antigo, amplificado por estudos metodologicamente fracos da década de 2000 e reforçado por desinformação que circula até hoje. Essa dúvida impede milhões de homens de investigar a causa hormonal do cansaço, da barriga que não sai e da queda de rendimento.
Como cardiologista, essa é uma das perguntas que mais recebo. E até 2023, a resposta honesta era: não temos um estudo definitivo de longo prazo desenhado especificamente para responder isso.
Mas em junho de 2023, o estudo TRAVERSE publicado no New England Journal of Medicine mudou esse cenário. Foi o primeiro ensaio clínico randomizado e controlado com poder estatístico suficiente para avaliar segurança cardiovascular da reposição de testosterona.
O que é o estudo TRAVERSE e por que ele é diferente
O TRAVERSE foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo que acompanhou 5.246 homens por média de 22 meses. Todos os participantes tinham hipogonadismo comprovado (testosterona total abaixo de 300 ng/dL) e risco cardiovascular aumentado ou doença cardiovascular prévia. Ou seja: foi desenhado justamente para avaliar o grupo de maior risco.
Metade dos homens recebeu gel de testosterona tópico em dose ajustada para manter os níveis dentro da faixa fisiológica normal. A outra metade recebeu placebo. O desfecho primário avaliado foi a ocorrência de eventos cardiovasculares maiores: infarto do miocárdio, AVC ou morte cardiovascular. Esse tipo de estudo é considerado padrão ouro na medicina baseada em evidências.
Estudos anteriores sobre testosterona e infarto tinham problemas metodológicos graves. Alguns eram observacionais, outros tinham amostras pequenas, outros usavam doses suprafisiológicas ou não ajustavam para fatores de confusão. O TRAVERSE foi o primeiro a ser desenhado especificamente para essa pergunta, com poder estatístico adequado e acompanhamento rigoroso.
O que o estudo revelou sobre testosterona e coração
Os resultados foram claros. Após 22 meses de acompanhamento, a incidência de eventos cardiovasculares maiores foi praticamente idêntica nos dois grupos: 7,0% no grupo da testosterona versus 7,3% no grupo placebo. A diferença não foi estatisticamente significativa. Portanto, a reposição hormonal em doses fisiológicas não aumentou o risco de infarto, AVC ou morte cardiovascular em homens com hipogonadismo.
Mais importante: o estudo mostrou benefícios significativos no grupo tratado. Houve melhora de sintomas como fadiga, libido, função erétil e qualidade de vida. Houve redução da massa gorda e aumento da massa magra. E o perfil lipídico melhorou, com redução de triglicérides e aumento de HDL. Esses são fatores protetores cardiovasculares, não fatores de risco.
Uma revisão sobre segurança cardiovascular da testosterona publicada em 2024 analisou o TRAVERSE junto com outros estudos e concluiu que, quando a reposição é feita em homens com deficiência comprovada, usando doses fisiológicas e com monitoramento adequado, o risco cardiovascular não aumenta. O que aumenta risco é a deficiência de testosterona não tratada.
Por que a testosterona baixa aumenta risco cardiovascular
Esse ponto é fundamental e frequentemente ignorado. A pergunta correta não é se a reposição faz mal ao coração. A pergunta correta é: o que faz mais mal — tratar a deficiência ou deixá-la progredir?
Níveis baixos de testosterona estão associados a múltiplos fatores de risco cardiovascular. Explico os principais:
Aumento da gordura visceral
Como já detalhei no artigo sobre o ciclo entre testosterona baixa e gordura visceral, a deficiência androgênica redireciona o armazenamento de gordura para o abdômen. Essa gordura visceral produz citocinas inflamatórias que agridem o endotélio vascular e aumentam o risco de aterosclerose. Portanto, deixar a testosterona baixa sem tratamento acelera esse processo.
Piora do perfil lipídico
Homens com testosterona baixa tendem a ter HDL mais baixo, triglicérides mais altos e partículas de LDL pequenas e densas, que são as mais aterogênicas. A reposição hormonal corrige esses parâmetros de forma consistente, como mostrado no TRAVERSE e em múltiplos outros estudos.
Resistência à insulina e síndrome metabólica
A testosterona regula a sensibilidade celular à insulina. Sem ela, o corpo desenvolve resistência insulínica, hiperinsulinemia compensatória e maior risco de diabetes tipo 2. Esses três fatores são amplificadores de risco cardiovascular. A reposição melhora a sensibilidade à insulina e reduz esses riscos.
Inflamação crônica de baixo grau
Estudos mostram que homens com testosterona baixa têm níveis mais altos de proteína C-reativa, interleucina-6 e outros marcadores inflamatórios. Esses marcadores estão diretamente associados a progressão de aterosclerose e eventos cardiovasculares. Tratar o hipogonadismo reduz a inflamação sistêmica.
A diferença entre reposição fisiológica e uso abusivo
Aqui está um ponto que gera muita confusão. Reposição hormonal para corrigir deficiência é completamente diferente de uso suprafisiológico para ganho muscular ou performance estética. As doses, os objetivos e os riscos são diferentes.
- Reposição fisiológica: o objetivo é levar os níveis de testosterona para a faixa normal, entre 400 e 800 ng/dL. Usamos gel tópico, injeções de ésteres de longa duração ou implantes subcutâneos. O monitoramento inclui testosterona total, testosterona livre, hematócrito, PSA e perfil lipídico. A dose é ajustada para manter os níveis estáveis dentro da normalidade. Esse é o protocolo usado no estudo TRAVERSE e o que fazemos no Instituto.
- Uso suprafisiológico: atletas recreacionais ou usuários de anabolizantes frequentemente usam doses 5 a 10 vezes superiores à reposição fisiológica. Níveis de testosterona acima de 1.500 ou 2.000 ng/dL trazem riscos aumentados: policitemia, aumento de hematócrito, risco de trombose, elevação de pressão arterial e alteração de perfil lipídico. Esses riscos não se aplicam à reposição em doses corretas.
Quando pacientes perguntam sobre os sintomas da deficiência androgênica e manifestam receio do tratamento por causa de relatos na internet, quase sempre estão confundindo reposição com abuso. São duas coisas completamente diferentes.
Quando a reposição de testosterona não deve ser feita
Existem contraindicações absolutas e relativas. A decisão de iniciar reposição hormonal precisa ser individualizada e baseada em avaliação clínica completa.
- Contraindicações absolutas: câncer de próstata ativo ou suspeita não investigada, câncer de mama masculino, hematócrito acima de 54%, insuficiência cardíaca descompensada grave e apneia do sono não tratada.
- Situações que exigem cautela: PSA elevado sem investigação urológica prévia, histórico de trombose venosa profunda, hiperplasia prostática benigna sintomática grave e policitemia prévia. Nessas situações, a decisão depende de uma avaliação risco-benefício cuidadosa.
É por isso que a reposição de testosterona nunca deve ser feita sem acompanhamento médico. A automedicação com hormônios, sem monitoramento de hematócrito, PSA e perfil lipídico, pode mascarar problemas graves ou agravar condições preexistentes.
O que mudou na prática clínica após o TRAVERSE
Antes do TRAVERSE, a orientação de grandes sociedades médicas era cautelosa. A American Heart Association e a Endocrine Society tinham reservas sobre reposição hormonal em homens com risco cardiovascular aumentado. Após a publicação do estudo, essas diretrizes começaram a ser revisadas.
Hoje, a recomendação é clara: homens com hipogonadismo sintomático comprovado por exames laboratoriais podem fazer reposição hormonal com segurança, desde que monitorados adequadamente. O risco cardiovascular não aumenta. E os benefícios — melhora de energia, composição corporal, libido, função cognitiva e qualidade de vida — são consistentes.
No Instituto, sempre tratei a reposição hormonal com a mesma seriedade clínica que trato qualquer outro fator de risco cardiovascular. Avalio testosterona total, testosterona livre, SHBG, hematócrito, PSA e perfil lipídico antes de iniciar. Monitoro esses parâmetros a cada três meses no primeiro ano e semestralmente depois. E ajusto a dose para manter os níveis dentro da faixa fisiológica, nunca acima.
Tenha segurança na reposição hormonal
A pergunta se testosterona causa infarto foi respondida pelo estudo TRAVERSE. A reposição hormonal em doses fisiológicas, em homens com hipogonadismo comprovado e com monitoramento adequado, não aumenta o risco de eventos cardiovasculares. O que aumenta risco cardiovascular é a deficiência de testosterona não tratada, que piora gordura visceral, perfil lipídico, resistência insulínica e inflamação crônica.
A testosterona causa infarto quando usada de forma abusiva, em doses suprafisiológicas, sem acompanhamento médico. Mas isso não tem nada a ver com reposição terapêutica. Confundir as duas coisas impede milhões de homens de investigar a causa hormonal do cansaço, da barriga que não sai, da queda de libido e do rendimento mental que piorou.
Se você reconhece esses sintomas e quer investigar se a causa é hormonal, agende uma consulta. Atendo presencialmente em Nova Lima, MG, e por teleconsulta para todo o Brasil. A reposição hormonal masculina no Instituto segue protocolo rigoroso com avaliação cardiovascular completa, monitoramento laboratorial e ajuste individualizado de dose.



