No Brasil, mais de 50% da população tem deficiência de vitamina D. Sim, o Brasil, um país tropical com abundância de sol. E sim, essa deficiência está associada a aumento de 4 a 5 vezes no risco de mortalidade cardiovascular. Apesar disso, a maioria dos cardiologistas nem pede o exame. Essa negligência deixa milhões de brasileiros com um fator de risco modificável, completamente tratável, mas completamente ignorado.
Se você nunca mediu seu nível de vitamina D, este artigo é para você. Não como alarmismo. Mas como reconhecimento de um problema de saúde pública que está matando pessoas silenciosamente.
O que a ciência recente mostra sobre vitamina D e coração
A vitamina D não é apenas um nutriente. É um hormônio esteróide com receptores em praticamente todas as células do corpo, incluindo células vasculares e cardíacas. Quando vitamina D está deficiente, o coração sofre consequências diretas.
Um artigo publicado em 2024 na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia sintetizou a evidência. Os dados são preocupantes:
- Pacientes com infarto agudo: 90% a 98% têm deficiência de vitamina D
- Estudo NHANES (EUA, 2026): 74% dos americanos com doença cardiovascular têm vitamina D deficiente
- Associação inversa: quanto menor a vitamina D, maior a mortalidade por todas as causas
- Em pacientes com insuficiência cardíaca: deficiência de vitamina D está associada a maiores níveis de BNP (marcador de estresse cardíaco) e maior mortalidade
Um editorial publicado em 2026 na Frontiers in Nutrition dedicou-se exclusivamente a explorar o papel de vitamina D em cardiometabolia. A conclusão foi inequívoca: deficiência de vitamina D é fator de risco independente para doença cardiovascular.
Os mecanismos: como vitamina D protege o coração
1. Regula a pressão arterial: vitamina D inibe a expressão do gene da renina. Renina é a enzima central do sistema renina-angiotensina, que controla pressão arterial. Com vitamina D adequada, esse sistema permanece equilibrado. Com deficiência, a renina fica descontrolada e pressão sobe.
Estudo NHANES-III (12.644 americanos): pressão arterial sistólica e pressão de pulso correlacionam inversamente com vitamina D. Ou seja, quanto mais baixa a vitamina D, mais alta a pressão.
2. Reduz inflamação vascular: vitamina D inibe citocinas pró-inflamatórias (TNF-alfa, IL-6, IL-1β). Inflamação crônica é o mecanismo central de aterosclerose. Sem vitamina D adequada, a inflamação vascular permanece ativa, danificando o endotélio e acelerando formação de placas. Esse mecanismo é especialmente relevante para quem tem risco cardiovascular aumentado.
3. Melhora sensibilidade à insulina: vitamina D modula a função das células beta pancreáticas e melhora a resposta periférica à insulina. Com deficiência, a resistência insulínica piora. Resistência insulínica é driver de múltiplos fatores de risco cardiovascular: obesidade visceral, dislipidemia, hipertensão.
4. Modula sistema imune: deficiência de vitamina D está associada a maior susceptibilidade a infecções. Isso parece desconectado de coração, mas não é. Infecções aumentam o risco de eventos cardiovasculares agudos de forma muito significativa.
5. Afeta estrutura e função do coração: receptores de vitamina D estão presentes nos cardiomiócitos. Deficiência pode levar a hipertrofia ventricular e disfunção diastólica, predispondo a insuficiência cardíaca.
Suplementação de vitamina D reduz risco cardiovascular?
Aqui vem o twist importante que muitos sites não mencionam. Por exemplo, estudos de intervenção randomizados grandes (VITAL 2019 no NEJM, estudo finlandês 2023-2025) mostraram que suplementação de vitamina D NÃO reduz eventos cardiovasculares em pessoas com níveis basais normais.
Mas isso não significa que vitamina D não importa. Significa que suplementar quem já tem níveis adequados (30-100 ng/mL) não agrega benefício adicional.
A história é bem diferente para quem tem deficiência real (<20 ng/mL). Nesses casos, a associação entre deficiência e mortalidade cardiovascular é forte e consistente. Um estudo prospectivo do NHANES mostrou associação inversa clara: vitamina D <21 ng/mL estava associada a mortalidade cardiovascular significativamente elevada.
O consenso atual: vitamina D deficiente (<20 ng/mL) é fator de risco independente associado a maior morbimortalidade cardiovascular. Mas o benefício da suplementação é comprovado especialmente em quem tem deficiência real, não em quem tem níveis normais.
Qual é o nível correto de vitamina D
Os valores de referência evoluem conforme a ciência avança. Eis o consenso atual:
- <20 ng/mL: deficiência (aumenta risco cardiovascular)
- 20-29 ng/mL: insuficiência (preocupante, exige ação)
- 30-100 ng/mL: ótimo (associado a menor risco)
- 100 ng/mL: potencial toxicidade
Para cardiologia, a meta é manter vitamina D acima de 30 ng/mL. Para pacientes com doença cardiovascular estabelecida, alguns cardiologistas targetam 40-50 ng/mL.
Por que deficiência é tão comum no Brasil
Paradoxalmente, Brasil é tropical mas metade da população é deficiente. Os fatores são múltiplos:
Fototipo de pele
Quanto mais melanina na pele, menor a síntese de vitamina D pela exposição solar. Brasileiros têm grande variedade de fototipo. Populações com pele mais escura precisam de 3-6 vezes mais exposição solar que populações caucasianas para sintetizar a mesma quantidade.
Uso correto de protetor solar
Protetor solar bloqueia 95%+ da síntese de vitamina D. É necessário para câncer de pele, mas reduz drasticamente vitamina D.
Poluição atmosférica
Partículas e ozônio na atmosfera filtram raios UV, reduzindo síntese de vitamina D.
Sedentarismo
Brasileiros passam cada vez mais tempo dentro de ambientes fechados, reduzindo exposição solar.
Dieta pobre em vitamina D
Poucas fontes naturais de vitamina D na dieta brasileira típica. Salmão, atum, cogumelos e gema de ovo são raros na alimentação de baixa renda.
Como corrigir deficiência de vitamina D
- Exposição solar: 15 a 20 minutos por dia sem protetor solar (dependendo do fototipo) é suficiente em muitos casos. Melhor nos horários de menor UV (antes das 10h ou após as 16h para evitar câncer de pele).
- Alimentos: salmão gordo, atum, ovos caipira, leite fortificado, cogumelos expostos ao sol são as melhores fontes.
- Suplementação: para quem tem deficiência documentada:
- Níveis 20-29 ng/mL: 1.000-2.000 IU/dia
- Níveis <20 ng/mL: até 4.000 IU/dia
- Reavaliar após 8-12 semanas
Alguns cardiologistas prescrevem até 10.000 IU/dia em deficiência severa, mas deve ser acompanhado para evitar toxicidade.
Importante: vitamina D NÃO é substituto para medicações cardiovasculares. Se você tem hipertensão, dislipidemia ou doença coronariana, vitamina D é complemento, não solução. Não substitua suas medicações.
Cuide da sua saúde
Deficiência de vitamina D não é problema apenas de saúde óssea. É fator de risco cardiovascular independente, especialmente relevante em um país tropical como Brasil onde metade da população é deficiente. Se você nunca mediu seu nível de vitamina D, faça isso hoje. Se está deficiente, corrija.
Não é solução milagrosa. Mas é uma das poucas coisas que você pode fazer imediatamente para reduzir risco de infarto sem depender de medicação. E em cardiologia, prevenção é sempre o melhor tratamento.
Para uma avaliação cardiovascular e metabólica completa que inclua dosagem de vitamina D, agende uma consulta. Atendo presencialmente em Nova Lima, MG, e por teleconsulta para todo o Brasil.
Dr. Rogério Tavares Machado da Silva | CRM-MG 48871 | RQE 31290 (Cardiologia) Instituto Rogério Tavares — Nova Lima, MG | Teleconsultas para todo o Brasil



